Resenhas de Shows
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Glenn Hughes – Vip Station

O domingo do dia 16 de Novembro, com uma agradável temperatura 26°C, prometia ser especial desde antes dos portões abrirem. E não foi diferente. O Vip Station, em Santo Amaro, estava praticamente lotado. O público, majoritamente mais velho (entenda-se clássico) se comparado a outros shows de outras bandas, estava ansioso aguardando a “voz do Rock”. Quando as luzes começaram a diminuir às 19h30, a sensação de que estávamos prestes a testemunhar algo raro, talvez único, era evidente.

Mas antes, era a hora de conferir a ótima banda de abertura, Eletric Gypsy.

O quarteto mineiro, formado por Guzz nos vocais, Nolas na guitarra, Pete no baixo e Robert Zimmerman na bateria, tinha a árdua missão de aquecer uma plateia ansiosa pelo o que viria a seguir.

E a missão foi completada com sucesso! “More Than Meets the Eye” abriu o setlist, seguida de “Nine Lives” e “I’m Down (for her)”. Quando os primeiros acordes de “Hot for Teacher” do Van Halen ecoaram pela casa, a plateia – explodiu em aplausos. O entrosamento e felicidade da banda era evidente. Para este show, baixista Pete usou um cabeçote da Orange, caixa da Ampeg e um potente contrabaixo de 5 cordas da Fender. Aquele famoso Jazz Bass, sabe?

O set ainda incluiu ainda “Love is a bitch”, “Right On”, uma ótima versão de “Shoot to Thrill” do AC/DC, “Till the Levee Runs Dry” e “Shoot ‘em Down”. Ao longo de 50 minutos, ficou claro que o Electric Gypsy não era apenas uma simples banda de abertura – eles já estão prontos a tempos para algo maior.

SETLIST – ELETRIC GYPSY
01 – Shoot ‘em Down
02 – More Than Meets the Eye
03 – Nine Lives
04 – I’m Down (for her)
05 – Hot for Teacher (Van Halen cover)
06 – Love is a bitch
07 – Right On
08 – Shoot to Thrill (AC/DC cover)
09 – Till the Levee Runs Dry

MÚSICOS
Guzz – Voz
Nolas – Guitarra/Voz
Pete – Baixo
Robert Zimmerman – Bateria/Voz



GLENN HUGHES

Quando as luzes se apagaram completamente às 21h, o murmúrio ansioso da multidão deu lugar a um silêncio reverente. Em cada canto do Vip Station, camisetas do álbum “Burn” do Deep Purple criavam um mar roxo e laranja. Amigos se abraçavam. Alguns limpavam lágrimas antes mesmo da primeira nota.

Glenn Hughes emergiu no palco acompanhado apenas do guitarrista dinamarquês Søren Andersen e do baterista Ash Sheehan – um formato reduzido que prometia intensidade em vez de ornamentos. E aos 74 anos, Hughes parecia ter feito um pacto com o tempo: sua presença era magnética, seu sorriso, genuíno. Ali estavam fazendo o simples: sem introduções, sem fumaça, sem pirotecnica. Apenas um power trio com um telão ao fundo exibindo uma imagem estática de uma linda paisagem com o logo de Glenn, tocando ao vivo tocando para os sedentos por boa música.

“Soul Mover” abriu o show com uma urgência visceral. A guitarra de Andersen cortava o ar enquanto o baixo de Hughes pulsava como um coração gigante sob nossos pés. A voz – ah, AQUELA voz – subia aos agudos com uma facilidade que desafiava qualquer lógica etária (com efeitos, sim – mas de forma algo desmerecendo ou diminuindo o artista). A cada nota que ele alcançava, a plateia reagia com um misto de palavrões de admiração e aplausos. Hughes estava munido de dois cabeçotes da Orange, duas caixas da Ampeg (somando o que foi usado por Pete), e seu contrabaixo de 4 cordas da NashGuitars, e palhetas da Dunlop. Infelizmente, não conseguimos observar quais pedais e/ou pedaleiras foram, utilizados. Para a música acústica que falaremos mais à frente, foi usado por ele um violão com cordas de nylon da Taylor.

O setlist foi uma viagem afetuosa pela carreira multifacetada de Hughes. “Muscle and Blood” e “First Step of Love” trouxeram à tona sua parceria com Pat Thrall. As canções do Trapeze“Way Back to the Bone”, “Medusa” e “Coast to Coast” – revelaram as raízes soul e funk que sempre permearam seu rock (além de seu momento extremamente pessoal ao confessar para o público que seus tempos de Trapeze foram os mais felizes de sua vida, mesmo tocando em pequenos clubes). E a dobradinha “Grace/Dopamine” (o momento do show preferido deste que vos escreve), do trabalho com Tony Iommi, ganhou um peso emocional extra quando Hughes parou para falar sobre seu “irmão” do Black Sabbath.

“Eu gostaria que Tony estivesse aqui comigo agora”, confessou Hughes, com os olhos marejados. A plateia respondeu com um aplauso caloroso que durou quase um minuto. Hughes também confessou que ainda se surpreende por Tony ser tão calmo e ao mesmo tempo criar os maiores riffs da história do “Heavy fuckin´ Metal”.

Mas foi com “Mistreated” que a noite alcançou seu ápice. Antes de começar, Hughes fez questão de dizer que toca essa música especialmente para o público brasileiro, um reconhecimento da relação única que construiu com seus fãs daqui ao longo de décadas.

As primeiras notas foram recebidas com gritos catárticos. Pessoas de todas as idades cantavam cada palavra em uníssono – “I’ve been mistreated, I’ve been abused” – como se fossem mantras de libertação. Ao menos, um quinto daquela formação “Mark III” estava lá, e era mais do que suficiente.

Hughes é um cristão devoto, e isso transpareceu em gratidão genuína. “Thank you” se tornou o refrão entre as músicas. Ele falou sobre seu amor pelo Brasil, pelo futebol brasileiro (como torcedor do Wolverhampton, fez questão de elogiar a qualidade técnica de nossos jogadores), e principalmente pelas pessoas que durante décadas o receberam com tanto carinho. O show estava chegando ao fim, mas ninguém estava pronto para se despedir. Os gritos de “mais um” ecoaram de forma imponente até que Hughes retornou para um breve bis.

A acústica “Coast do Coast”, “Black Country” e “Burn” fecharam o show principal com uma explosão de energia que deixou todos satisfeitos. Ao fim, ele nos presenteia com uma frase de profundo impacto: “Eu quero capturar este momento com a minha mente, porque tenho boa memória para essas coisas. E São Paulo sempre estará comigo. Espero reencontrá-los de alguma forma, em algum lugar. Muito obrigado.”

E então, entre aplausos e mais aplausos. O show acabou, mas a experiência, ecoará por muito tempo.

SETLIST – GLENN HUGHES
01 – Soul Mover
02 – Muscle and Blood (Hughes/Thrall)
03 – Voice in My Head
04 – One Last Soul (Black Country Communion)
05 – Can’t Stop the Flood
06 – First Step of Love (Hughes/Thrall)
07 – Way Back to the Bone (Trapeze)
08 – Medusa (Trapeze)
09 – Grace/Dopamine (Iommi)
10 – Chosen
11 – Mistreated (Deep Purple)
12- Stay Free (Black Country Communion)
13 – Coast to Coast (Trapeze)
14 – Black Country (Black Country Communion)
15 – Burn (Deep Purple)

MÚSICOS
Glenn Hughes – Baixo/Voz
Søren Andersen – Guitarra/Voz
Ash Sheehan – Bateria


Agradecimentos
Produção: Dark Dimensions
Imprensa/Assossoria: Johnny Z/JZ Press
Fotos: Marcos Trojan

Fabio Carito

Fabio Carito é baixista, letrista e compositor. Hoje, é integrante da banda alemã de Power Metal Metalium. Também é sideman de artistas como Tim “Ripper” Owens (Judas Priest/Iced Earth/Yngwie Malmsteen), Udo Dirkschneider (Accept/U.D.O), Roland Grapow (Helloween/Masterplan), Michael Vescera (Malmsteen/Loudness) e Leather Leone (Chastain/Solo), onde excursiona em territórios nacionais e internacionais. Também foi integrante da banda solo do vocalista Warrel Dane (Nevermore/Sanctuary/Solo) até seu falecimento em 2017. Possui mais de 30 trabalhos gravados por gravadoras como Century Media, Massacre Records, Wikimetal e um DVD instrucional lançado de forma independente. É colunista da Cover Baixo desde 2017.
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