A vida na estrada
Tendência

Rock instrumental nos EUA

Em Agosto de 2019, o Stringbreaker & The Stuffbreakers, trio que integro junto de Sérgio Ciccone (bateria) e Guilherme Spilack (guitarra), partiu para uma empreitada de quinze shows em trinta dias pelos estados de Ohio, Pensilvânia, Nova Jersey e Nova York, nos Estados Unidos; tudo idealizado, organizado e botado em prática por quem carrega consigo a ousadia de fazer rock instrumental autoral.

Chegamos muito próximos da marca de duzentos estabelecimentos contatados para converter pouco menos de 10% em apresentações que passaram por pequenos bares de música autoral, grandes estabelecimentos com nove televisores exibindo múltiplos jogos de baseball ao mesmo tempo e até um revival de tocar na rua sob sol e chuva durante a Rock Hall Half Marathon, evento esportivo organizado e sediado pelo lendário Rock’n’Roll Hall of Fame.

Se apresentar em um país diferente gera uma série de questionamentos ansiosos: será que eles aceitam gente de fora fazendo um som que é intrínseco à cultura deles? Vão se interessar por rock instrumental? Conversar conosco, comprar merch? E a resposta é sim, e muito.

Um dos momentos mais memoráveis se deu num dos primeiros dias, quando a passagem de som aconteceu durante um dos já mencionados jogos de baseball. Concentrados no balcão do lado oposto ao palco e totalmente vidrados na TV, os clientes pareciam sequer saber que estávamos lá. Lembro claramente do momento onde disse para os garotos que seria um dia de ensaio fora de casa, e eu nem consigo descrever o tamanho da nossa surpresa quando todos eles abandonaram a primeira base e se acomodaram nas mesas próximas do palco, prestando atenção na banda do início ao fim.

Show no Annabells, casa notória por ter sediado os primeiros shows do Black Keys. Ao vermos o tamanho do palco, nos lembramos que eles são uma dupla.

Para nossa felicidade, o mesmo comportamento se repetiu por todo o mês. No Wilbert’s, em Cleveland, Ohio, que ostenta duas paredes repletas de retratos de ganhadores de Grammy que se apresentaram na casa, um senhor que antes do show nos apontou o outro lado da rua dizendo que presenciara o AC/DC com Bon Scott ali mesmo em 1975, contou que foi nos assistir por ter ouvido uma música nossa na rádio da faculdade onde trabalha; um rapaz extremamente falante que ria bastante de suas próprias piadas falou que foi ao bar por ter se interessado na gente por conta da newsletter da casa. Em Akron, até mesmo um breve encontro com verdadeiros motociclistas membros dos Hell’s Angels aconteceu, que por trás de seus semblantes imponentes, foram prestativos o suficiente para solicitar à equipe da casa que acendesse as luzes do palco para que pudéssemos montar o equipamento.

Obviamente, ao longo de trinta dias não faltaram perrengues, como dirigir quase uma hora no sentido errado em plena madrugada depois de show que já não era tão próximo, ter de ir receber cachê na casa mais estranha que já entramos na vida – que mais parecia o Korova Milkbar –, se exaltar ao jogar Tetris com equipamento no porta-malas, quase bater o carro em Nova York, constatar que o cheiro da carne do mercado era estranho e rasgar as calças na rua; mas a realização de levar nossa verdade além de fronteiras continentais sem dúvidas compensa tudo. Além disso, é claro, os amigos que fizemos por lá permanecem até hoje – com agradecimentos especiais ao Mike, nosso tour manager –, todos devidamente assustados com a capacidade de impulsão do café passado pelo Guilherme. Até mesmo uma das maiores dificuldades da viagem foi eternizada num exclusivíssimo single em vinil limitado em quatro unidades.

Ideias de explorar outros cantos do mundo foram postos em standby devido ao fim do mundo em 2020, mas não esquecidos, e eu não vejo a hora de explorar novos territórios e engordar mais comendo todas as porcarias do mercado junto dos meus companheiros de banda que seguem acreditando em cada braçada dada contra a maré.

“Take #25” ao vivo em Cincinnati, OH.

Dilson Siud

Dilson Siud é baixista desde 2004. Após de um período no EM&T (Escola de Música & Tecnologia) Campinas, se tornou aluno de Jim Stinnett, professor da Berklee College of Music (Boston, EUA), e ao se destacar nos estudos, estampou a Stinnett Student Spotlight de dezembro de 2014, conquistando uma bolsa de estudos integral para o New Hampshire Bass Fest 2015, mesmo ano em que se tornou editor-geral da revista Cover Baixo, a maior e mais longeva publicação brasileira sobre o mundo dos graves.
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